Evidências epidemiológicas sugerem que o consumo de flavonoides (polifenóis encontrados comumente em frutas, vegetais, chás, café e chocolate) está associado a um menor risco de desenvolver depressão. Uma explicação plausível para esta associação são os bem documentados efeitos benéficos dos flavonoides na função executiva, ou seja, regulação dos processos cognitivos, incluindo memória de trabalho, raciocínio, flexibilidade de tarefas e resolução de problemas, bem como o planejamento e execução.

 

As antocianinas, uma classe de flavonoides presentes, por exemplo, no mirtilo, já foram apontadas para melhorar a memória em pessoas mais velhas. Estes compostos fornecem efeitos antioxidantes e anti-inflamatórios e vêm sendo associados com o aumento da sinalização neuronal – onde sinais elétricos são gerados e conduzidos enquanto neurotransmissores são liberados em regiões do cérebro. Com isto, mediam a função da memória e melhoram a eliminação da glicose, benefícios que parecem mitigar a neurodegeneração.1

 

Um estudo que acaba de ser publicado em Applied Physiology, Nutrition, and Metabolism (Março, 2017) confirma esses achados anteriores, desde que também encontrou resultados positivos entre o consumo elevado de flavonoides através do mirtilo e efeitos cognitivos.  Neste, cientistas da Universidade de Exeter, Inglaterra, informam que um concentrado da fruta (387mg de antocianinas) aumentou a memória de trabalho em adultos saudáveis com idade aproximada de 68 anos.2

 

De fato, são muitos os estudos que já observaram a associação entre o consumo de flavonoides e a cognição, e entre a cognição e a depressão. Recentemente, pesquisadores da Universidade de Reading, Reino Unido, acessaram o efeito do mirtilo no humor ou disposição (mood) de 50 crianças e 21 jovens, usando uma escala que acessa os efeitos positivos e negativos (Positive and Negative Affect Schedule, sigla em inglês, PANAS).3

 

Os dados mostraram uma melhora significativa no chamado efeito positivo (PA), e não no efeito negativo (NA).

 

“Apesar de preliminares, esses resultados são intrigantes e justificam uma investigação focada sobre a relação entre flavonoides e humor, bem como saúde mental em geral”, escreveram os pesquisadores em Nutrients.

 

“O efeito distintivo dos flavonoides na PA, mas não NA é notável”, acrescentaram. “PA e NA refletem facetas ortogonais do humor. Uma PA baixa está mais ligada à depressão, e NA elevada está mais estreitamente relacionada com a ansiedade. Assim, esses dados sugerem que o efeito do consumo de flavonoides no humor pode ser específico para distúrbios depressivos, em vez de penetrar em diferentes estados de humor.”

 

Uma hipótese explicativa para isso poderia estar em dois mecanismos de ação, segundo os pesquisadores: o primeiro envolve um potencial efeito indireto no fluxo sanguíneo no cérebro, o que aumentaria o funcionamento da função executiva e ajudaria a inibir as características cognitivas que mantêm a depressão

 

O segundo mecanismo envolve a inibição direta da enzima monoamina oxidase (MAO) pelas antocianinas do mirtilo. “A MAO está envolvida na oxidação de monoaminas, algumas das quais são neurotransmissoras envolvidas na regulação do humor (por exemplo, serotonina, dopamina e noradrenalina)”, explicaram. “Os inibidores da MAO já são usados ​​para tratar distúrbios do humor. Portanto, o consumo de frutas ricas em flavonoides pode reduzir significativamente a atividade da MAO, aumentando assim as monoaminas circulantes e elevando o humor.”

 

Referências:

  • Krikorian R, et al. Blueberry supplementation improves memory in older adults. J Agric Food Chem. 2010. doi: 10.1021/jf9029332
  • Bowtell JL, et al. Enhanced task related brain activation and resting perfusion in healthy older adults after chronic blueberry supplementation. Applied Physiology, Nutrition, and Metabolism, 2017. 10.1139/apnm-2016-0550
  • Khalid S, et al. Effects of Acute Blueberry Flavonoids on Mood in Children and Young Adults. Nutrients, 2017. doi:3390/nu9020158

 

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