Em um avanço significativo no estudo da capacidade mental, uma equipe de cientistas europeus e americanos anunciou que foram identificados 52 genes vinculados à inteligência em quase 80.000 pessoas.

 

Entretanto, esses genes não determinam a inteligência. Sua influência combinada é minúscula, disseram os pesquisadores, sugerindo que outros milhares provavelmente ainda estão envolvidos. Igualmente importante, a inteligência é profundamente moldada pelo ambiente.

 

Ainda assim, os especialistas afirmam que estes resultados poderiam tornar possível o início de novas experiências sobre a base biológica do raciocínio e da resolução de problemas. Eles podem até ajudar os pesquisadores a determinar quais as intervenções mais eficazes para as crianças com dificuldades de aprendizagem.

 

“Isso representa um enorme sucesso”, afirmou Paige Harden, psicóloga da Universidade do Texas.

Por mais de um século, os psicólogos estudaram a inteligência fazendo perguntas às pessoas. Seus exames evoluíram em baterias de testes, cada um sondando uma habilidade mental diferente, como raciocínio verbal ou memorização.

 

Em um teste, as tarefas podem incluir a imaginação de um objeto girando, escolhendo uma forma para completar uma figura e, em seguida, pressionando um botão o mais rápido possível sempre que um determinado tipo de palavra aparece.

 

Cada participante pode obter diferentes pontuações para diferentes habilidades. Mas acima de tudo, essas pontuações tendem a se aproximar – as pessoas que pontuam baixo em uma medida tendem a pontuar baixo em outras, e vice-versa. Psicólogos às vezes se referem a essa semelhança como inteligência geral.

 

Ainda não está claro o que no cérebro conta como inteligência. Os neurocientistas compararam os cérebros de pessoas com pontuações altas e baixas e descobriram algumas pistas.

 

O tamanho do cérebro explica uma pequena parte da variação, por exemplo, embora haja uma abundância de pessoas com cérebros pequenos que pontuam melhor do que outras com cérebros maiores.

 

Outros estudos sugerem que a inteligência tem algo a ver com a eficiência com que um cérebro pode enviar sinais de uma região para outra.

 

Danielle Posthuma, geneticista da Universidade de Vrije, Amsterdã, e autora sênior do novo artigo, começou a se interessar pelo estudo da inteligência na década de 1990. “Eu sempre ficava intrigada com a forma como ela funciona. Será uma questão de conexões no cérebro ou será uma insuficiência de neurotransmissores?”

 

A Dra. Posthuma queria encontrar os genes que influenciam a inteligência e começou estudando gêmeos idênticos que compartilham o mesmo DNA. Ela e seus colegas descobriram que os idênticos tendem a ter resultados de testes de inteligência mais similares do que os gêmeos fraternos.

 

Centenas de outros estudos chegaram à mesma conclusão, mostrando uma clara influência genética sobre a inteligência. Mas isso não significa que a inteligência é determinada apenas por genes.

 

Nosso ambiente exerce seus próprios efeitos, sendo que apenas alguns deles são bem compreendidos pelos cientistas. A presença de chumbo na água potável, por exemplo, pode arrastar para baixo os resultados dos testes de inteligência. Em lugares onde o alimento não contém iodo, sua suplementação a crianças pode aumentar suas pontuações.

 

Avanços na tecnologia de sequenciamento do DNA levantaram a possibilidade de que os pesquisadores pudessem identificar genes individuais associados a diferenças subjacentes nos escores dos testes de inteligência. Alguns candidatos foram identificados em populações pequenas, mas seus efeitos não reapareceram em estudos maiores.

 

Então, os cientistas se voltaram para o que agora é chamado de estudo de associação genômica: Eles sequenciam pedaços de material genético no DNA de muitas pessoas não relacionadas, então olham para ver se as pessoas que compartilham uma condição particular – digamos, alta pontuação em teste de inteligência – também compartilham o mesmo marcador genético.

 

Em 2014, a Dra. Posthuma fez parte de um grande estudo, de mais de 150.000 pessoas, que revelou 108 genes ligados à esquizofrenia. Mas ela e seus colegas tiveram menos sorte com a inteligência, o que provou ser uma tarefa difícil de ser realizada por algumas razões.

 

Os testes de inteligência padrão podem levar muito tempo para ser concluídos, dificultando a obtenção de resultados em um número enorme de pessoas. Os cientistas podem tentar combinar estudos menores, mas eles muitas vezes têm de combinar diferentes testes juntos, potencialmente mascarando os efeitos dos genes.

 

Como resultado, a primeira geração de estudos de genoma associado com a inteligência não conseguiu encontrar quaisquer genes. Estudos posteriores conseguiram produzir resultados promissores, mas quando os pesquisadores voltaram-se para outros grupos de pessoas, o efeito dos genes desapareceu novamente.

 

No entanto, nos últimos dois anos, estudos maiores baseados em novos métodos estatísticos finalmente produziram evidências convincentes que específicos genes realmente estão envolvidos na formação da inteligência humana.

 

“Há uma enorme quantidade de inovação acontecendo”, disse Stuart J. Ritchie, geneticista da Universidade de Edimburgo, que não estava envolvido no novo estudo.

 

A Dra. Posthuma e outros especialistas decidiram mesclar dados de 13 estudos anteriores, formando um vasto banco de dados de marcadores genéticos e testes de inteligência. Depois de tantos anos de frustração, a Dra. Posthuma estava pessimista: “Eu pensei, ‘Claro que não vamos encontrar nada’”. Ela estava errada. Para sua surpresa, 52 genes surgiram com vínculos firmes com a inteligência. Uma dúzia deles haviam aparecido em estudos anteriores, mas 40 eram inteiramente novos.

 

Mas, os pesquisadores descobriram que todos esses genes juntos representam apenas uma pequena porcentagem da variação nas pontuações dos testes de inteligência. Cada variante aumenta ou baixa o I.Q. por apenas uma pequena fração de um ponto. “Isso significa que há um longo caminho a percorrer, e haverá uma série de outros genes que vão ser importantes”, afirmou a Dra. Posthuma.

 

Christopher F. Chabris, coautor do novo estudo no Geisinger Health System em Danville, Pensilvânia, está otimista de que muitos desses genes desaparecidos virão à luz, graças a estudos ainda maiores envolvendo centenas de milhares, talvez milhões, de pessoas. “É como a astronomia que vai ficando melhor com telescópios maiores”, disse ele.

 

No novo estudo, a Dra. Posthuma e seus colegas limitaram suas pesquisas a pessoas de ascendência europeia porque isso aumentou as chances de encontrar variantes genéticas comuns ligadas à inteligência. Mas outros estudos genéticos mostraram que variantes em uma população pode deixar de prever como as pessoas são em outras populações. Diferentes variantes tornam-se importantes em diferentes grupos, e isso pode muito bem ser o caso da inteligência. “Se você tentar prever a altura de africanos usando os genes que identificamos em europeus, você irá achar que todos os africanos são cinco polegadas mais baixos que os europeus, o que não é verdade”, relatou a Dra. Posthuma.

 

Estudos como o agora publicado não significam que a inteligência é fixada por nossos genes, observaram os especialistas. “Se entendemos a biologia de algo, isso não significa que estamos direcionando-a para o determinismo”, esclareceu o Dr. Ritchie. Como uma analogia, ele observou que a miopia é fortemente influenciada por genes. Mas podemos mudar o ambiente – na forma de óculos – para melhorar a visão das pessoas.

 

A Dra. Harden previu que uma compreensão emergente da genética da inteligência tornaria possível encontrar melhores maneiras de ajudar as crianças a se desenvolverem intelectualmente. Conhecer as variações genéticas das pessoas ajudaria os cientistas a medir quão eficazes são as diferentes estratégias. Ainda assim, disse Harden, não precisamos esperar que esses estudos mudem o ambiente das pessoas para melhor. “Sabemos que o chumbo prejudica as habilidades intelectuais das crianças”, disse ela. “Há, portanto, uma política de baixo custo que já pode ser executada.”

 

Por sua vez, a Dra. Posthuma quer dar sentido aos 52 genes que ela e seus colegas descobriram. Existem intrigantes sobreposições entre sua influência na inteligência e em outras características. As variantes genéticas que elevam a inteligência também tendem a aparecer mais frequentemente em pessoas que nunca fumaram. Algumas delas também são encontradas mais frequentemente em pessoas que fumaram, mas pararam com êxito.

 

Quanto ao que os genes realmente fazem, a Dra. Posthuma não pode dizer. Quatro deles são conhecidos por controlar o desenvolvimento de células, por exemplo, e três fazem uma variedade de coisas dentro dos neurônios. Para entender o que torna esses genes especiais, os cientistas podem precisar executar experimentos em células cerebrais. Uma possibilidade seria pegar células de pessoas com variantes que predizem inteligência alta e baixa. Ela e seus colegas podem encorajar essas células a se desenvolverem em neurônios, e em “mini-cérebros” – grupos de neurônios que trocam sinais no laboratório. Os pesquisadores poderiam então ver se suas diferenças genéticas fizeram com que se comportassem de forma diferente. “Nós não podemos fazer isso da noite para o dia”, afirmou a Dra. Posthuma, “mas é algo que espero poder fazer no futuro”.

 

 

Traduzido por Essentia Pharma

 

Fonte:https://www.nytimes.com/2017/05/22/science/52-genes-human-intelligence.html?smid=nytcore-ipad-share&smprod=nytcore-ipad&_r=0

 

 

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