O transtorno do espectro autista (TEA), o qual engloba o autismo, a síndrome de Asperger e o transtorno global do desenvolvimento sem especificação, é um transtorno de desenvolvimento caracterizado por déficits generalizados na interação social, comprometimento da comunicação verbal e não verbal e padrões inalteráveis de interesses e atividades. Enquanto cientistas e profissionais especializados pesquisam a cura para o transtorno de complexa e heterogênea etiologia, atualmente, os tratamentos farmacológicos oferecidos são majoritariamente baseados no controle, servindo de complemento a terapias comportamentais e nutricionais, sem oferecer melhora no cerne de seus sintomas.

 

Previamente relatada a deficiência ou insuficiência de vitamina D3 em crianças com autismo, vários são os estudos que indicam uma melhora comportamental nestes pacientes através da suplementação da vitamina na sua forma ativa (25-OHD ou calcitriol). No entanto, ainda não se havia executado um estudo randomizado, duplo-cego, controlado – importantíssimo para a construção e comprovação da evidência montante. Portanto, a importância do estudo que acaba de ser publicado em Journal of Child Phychology and Psychiatry: “A Randomized-Controlled Trial of Vitamin D Supplementation in Children with Autism Spectrum Disorder”.

 

A vitamina D tem um papel importante na homeostase do cérebro, neurodesenvolvimento, envelhecimento e desempenha um papel significativo na regulação genética. Esta vitamina se liga a mais de 2.700 genes e regula a expressão de mais de 200 deles, sendo sugerido que ela atua como um esteroide neuroativo, afetando a diferenciação neuronal, conectividade axonal e estrutura e função do cérebro. Além disso, sua deficiência durante a gravidez está ligada a vários efeitos adversos no feto, como a restrição do crescimento intrauterino e aumento do risco de desenvolvimento do espectro do autismo.

 

O estudo de quatro meses de duração, executado no Egito com cientistas locais e da Arábia Saudita, Chile, Reino Unido, China e Noruega, randomizou 85 meninos e 24 meninas saudáveis (3 a 9 anos) em dois grupos: grupo 1 recebeu 300 UI/kg/dia de vitamina D3 em gotas (não excedendo 5.000 UI/dia), e grupo 2 recebeu um placebo com as mesmas características sensoriais para que nem os pais ou clínicos envolvidos na análise soubessem do conteúdo do frasco. (A numeração dos frascos foi feita distante do local da inscrição do experimento.)

 

Antes e após o tratamento, os pesquisadores utilizaram quatro escalas (CARS, ABC, SRS e ATEC) diferentes para medir a severidade do TEA e mediram os níveis de vitamina D. No início do estudo, 13% dos pacientes apresentavam concentração sérica de 25-OHD normal (>30 ng/ml), enquanto 57% e 30% apresentavam concentrações deficitárias e insuficientes, respectivamente. Os níveis médios de 25-OHD em pacientes com autismo grave foram significativamente menores (P <0,0001) do que aqueles em pacientes com autismo leve/moderado.

 

No estudo, a suplementação de vitamina D, dentre suas várias escalas de análise utilizadas, revelou significantes efeitos nas manifestações nucleares do TEA. No grupo vitamina, ocorreu melhora da consciência e cognição social, irritabilidade, hiperatividade, isolamento social, comportamento estereotipado, fala, redução dos movimentos repetitivos com as mãos, interesses restritivos, criação de barulhos, em comparação com o grupo placebo.

 

Os pesquisadores relatam que, “Observou-se melhora mais substancial das escalas de classificação de TEA em pacientes cujo nível sérico final de 25-OHD foi > 40 ng/ml, em comparação com indivíduos com níveis mais baixos (P ≤ 0,05). Todas as crianças com níveis finais de 25-OHD > 40 ng/ml melhoraram os escores CARS”.

 

A suplementação em alta dose de vitamina D foi bem tolerada, com poucos efeitos adversos, como erupções cutâneas, prurido e diarreia, relatados em 5 (8,3%) pacientes do grupo 1. Todos os efeitos colaterais foram leves e transitórios.

 

“Níveis inadequados de vitamina D são frequentemente observados entre crianças com TEA. Descobrimos que a gravidade da deficiência é significativamente associada de maneira inversa a escalas de classificação do autismo. A vitamina D é de baixo custo, prontamente disponível e segura. Pode ter efeitos benéficos em indivíduos com TEA, especialmente quando o nível sérico final é superior a 40 ng/ml”, os pesquisadores concluem.

 

 

Estudo: Khaled Saad, et al. Randomized-Controlled Trial of Vitamin D Supplementation in Children with Autism Spectrum Disorder.  Journal of Child Phychology and Psychiatry, 2016. DOI: 10.1111/jcpp.12652

 

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