Sabemos que o sofrimento psicológico prolongado pode desequilibrar a saúde física. E eis que a confirmação científica chegou: um novo estudo confirma que o sofrimento psicológico alto ou muito alto devido à depressão ou ansiedade afeta o risco de uma pessoa ter problemas de saúde cardiovascular, como ataque cardíaco e derrame. A confirmação pode ser um importante lembrete de como a saúde mental precisa ser tratada de maneira séria, integrada na prática clínica, e da importância de cuidar da saúde como um todo.

Pesquisadores da Universidade de Edimburgo, no Reino Unido, e da Universidade de Queensland, em Brisbane, Austrália, realizaram um grande estudo que investigou a associação entre medidas de sofrimento psíquico e risco cardiovascular. A ideia de que o estado de saúde mental pode influenciar o risco de uma pessoa ter um evento de saúde cardiovascular não é nova.

De fato, um número crescente de estudos vem examinando esse tema em um esforço para obter uma melhor compreensão quantitativa dos fatores psicológicos sobre a saúde física. No novo estudo, a equipe avaliou 221.677 participantes com 45 anos ou mais, concentrando-se em seus níveis individuais de sofrimento e acompanhando a evolução de sua saúde cardiovascular ao longo dos anos.

A análise concluiu que o sofrimento psicológico influencia o risco de eventos como ataque cardíaco e acidente vascular cerebral, independentemente de outros fatores. Por isso, no artigo publicado recentemente em “Circulation: Cardiovascular Quality and Outcome”, a equipe de pesquisa recomenda que as pessoas já em risco de problemas de saúde cardiovascular considerem os distúrbios psicológicos como um fator de influência sério.

Saúde mental e saúde cardiovascular: a ligação
Os pesquisadores trabalharam com participantes recrutados através do estudo “45 and Up Study”. Os voluntários se juntaram ao estudo de 2006 a 2009, e nenhum deles havia sofrido um ataque cardíaco ou derrame no momento do recrutamento. Do total de participantes, 119.638 eram mulheres (com idade média de 60 anos) e 102.039 eram homens (idade média de 62 anos).

Depois de contabilizar o impacto de outros fatores relevantes – incluindo tabagismo, dieta, consumo regular de álcool e histórico médico –, a equipe de pesquisa foi capaz de confirmar que a ligação entre o sofrimento psicológico alto ou muito alto e um risco cardiovascular aumentado permaneceu.

“Embora esses fatores já relevantes possam explicar alguns dos riscos aumentados observados, eles não parecem explicar tudo, indicando que outros mecanismos provavelmente são importantes”, explica a autora sênior do estudo, Caroline Jackson.

Especificamente, os pesquisadores descobriram que as mulheres que experimentam sofrimento psicológico alto ou muito alto tiveram um risco 44% maior de acidente vascular cerebral. Quanto aos homens, aqueles com idade entre 45 e 79 anos que relataram sofrimento alto ou muito alto tiveram um risco 30% maior de ataques cardíacos.

Com a idade, a associação parece se tornar mais fraca para os homens: a partir de 80 anos, houve um aumento menor no risco, mesmo com altas medidas de sofrimento. A fim de determinar os níveis de sofrimento psicológico dos participantes, os pesquisadores utilizaram um questionário de autoavaliação, com perguntas como “Com que frequência você se sente cansado sem uma boa razão?” e “Com que frequência você se sente tão triste que nada poderia animá-lo?”

Sofrimento psicológico e sofrimento físico em pauta
De acordo com os resultados, 16,2% dos participantes experimentaram níveis moderados de sofrimento psicológico, enquanto 7,3% relataram níveis altos ou muito altos. O acompanhamento dos participantes durou mais de quatro anos, durante os quais os pesquisadores registraram 4.573 ataques cardíacos e 2.421 derrames.

É importante ressaltar que os pesquisadores observam que o risco geral de ataque cardíaco e derrame aumenta com cada medida de sofrimento psicológico. Os pesquisadores explicam que os resultados de seu estudo consolidam a noção de que o sofrimento severo – talvez vinculado a condições como depressão e ansiedade – pode aumentar o risco de doenças cardiovasculares. Ao mesmo tempo, enfatizam a necessidade de realizar mais estudos abordando os mecanismos subjacentes que podem estar em jogo, e entender melhor as diferenças potenciais de risco entre mulheres e homens.

Jackson enfatiza ainda que os indivíduos com sofrimento psíquico devem receber atenção mais focada e assistência para o manejo dos sintomas, já que seu estado de saúde mental pode, de fato, prejudicar sua saúde física.

“Encorajamos uma triagem mais proativa para sintomas de sofrimento psicológico. Os médicos devem rastrear ativamente os fatores de risco cardiovascular em pessoas com esses sintomas de saúde mental.” – Caroline Jackson

De fato, os pesquisadores explicam que, devido à abordagem metodológica – que exigiu analisar todos os fatores modificadores no mesmo ponto no tempo –, não foi possível avaliar a associação potencial entre medidas de sofrimento psíquico e outras variáveis, como hábitos alimentares ou tabagismo.

Isso significa, eles alertam, que o sofrimento psicológico sobre o risco cardiovascular pode ser ainda maior do que o estimado.

Traduzido e adaptado por Essentia Pharma:
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