Para uma longevidade saudável, buscamos uma baixa frequência de mutações dentro do genoma de nossas células, como mudanças nas sequências do ácido nucleico e mudanças nos cromossomas (DNA). A isto, chamamos de estabilidade genômica ou longevidade. A vitamina D já mostrou proteger as proteínas e membranas celulares contra o estresse oxidativo, e recentemente um estudo a associou à biologia dos glóbulos brancos – parte do sistema imune do organismo – e à estabilidade genômica.

Afinal, o envelhecimento é um processo biológico complexo caracterizado por um declínio progressivo das funções dos órgãos que pode levar a um maior risco de doenças. Décadas de pesquisa intensiva identificaram uma série de caminhos moleculares e bioquímicos que contribuem para o envelhecimento, como o possível encurtamento dos telômeros.

Chamamos de telômeros a estrutura de proteínas e DNA que envolve as extremidades dos cromossomos para manter sua estabilidade e impedir o desgaste do material genético, por exemplo. A sua disfunção e consequente instabilidade genômica parecem ser de importância crítica para o envelhecimento a nível celular. Doenças relacionadas com a idade e envelhecimentos prematuros são frequentemente associadas ao encurtamento de telômeros.

Estudos recentes sugerem que micronutrientes como a vitamina D, o folato e a vitamina B12 estão envolvidos na biologia dessa proteção dos cromossomos e na longevidade celular.

Em particular, a vitamina D é importante para uma variedade de processos celulares vitais, incluindo a diferenciação, proliferação e apoptose celular. Como resultado das múltiplas funções dessa vitamina, especula-se que ela desempenha um papel na biologia dos telômeros leucocitários (glóbulos brancos integrantes do sistema imune) e na estabilidade genômica, pois a sua deficiência tem sido associada à mortalidade por todas as causas e câncer.

Vitamina D e longevidade
Para estabelecer uma plausibilidade biológica dessas associações, pesquisadores investigaram níveis séricos de vitamina D e o comprimento dos telômeros de leucócitos de 1.542 adultos jovens (entre 20 e 39 anos), 1.336 adultos de meia-idade (entre 40 e 59 anos), e 1.382 adultos mais velhos (acima de 60 anos) da população americana.

O comprimento dos telômeros foi medido usando-se o método de reação em cadeia da polimerase quantitativa. As concentrações séricas dessa vitamina no organismo foram consideradas ótimas. Foram ajustados possíveis fatores que podem confundir a análise, como idade, sexo, raça/etnia, índice de massa corporal (IMC), ingestão total de energia e açúcar, ingestão de cálcio, estado socioeconômico, consumo de suplemento dietético, leite e atividade física.

Os autores do estudo, publicado em Journal of Nutrition, apresentaram suas conclusões como correlação, e não causação, mas mostraram possíveis implicações para o nosso entendimento sobre o envelhecimento saudável e redução do risco de câncer. “Em uma população nacionalmente representativa de adultos, a vitamina D foi associada positivamente com o comprimento dos telômeros de leucócitos em participantes de meia-idade (40-59 anos), independentemente de outros fatores. Esses achados sugerem que a redução das concentrações desta vitamina está associada à instabilidade genômica, embora o impacto clínico desta observação permaneça não claro”, escreveram.

Os resultados também mostram a participação da vitamina D para a redução do risco de câncer. “Como a malignidade pode ser uma consequência da instabilidade genômica e encurtamento de telômeros, o nosso achado de uma associação positiva entre 25(OH)D sérica e o comprimento dos telômeros de leucócitos podem ser interpretados como um possível mecanismo para o ‘papel protetor’ da vitamina D e como justificativa para outros estudos controlados e randomizados com o câncer como resultado primário”, finalizaram.

 

N. da T.: Como suplementação, a vitamina D se refere a dois precursores biológicos: a vitamina D3 (colecalciferol) e a D2 (ergocalciferol). Ambas são transformadas no fígado e depois nos rins em um então pró-hormônio com atividade biológica. Evidências sugerem que a suplementação da vitamina sob a forma D3 apresenta certa superioridade funcional em comparação com a D2.

Beilfuss J, et al. Serum 25-hydroxyvitamin D has a modest positive association with leukocyte telomere lenght in middle-aged US adults. J Nutr. 2017. Doi: 10.3945/jn.116.244137