O estudo Global Burden of Disease (GBD), oferece um lembrete desencorajador de que a epidemia global de obesidade aumentou na maior parte do mundo e que suas implicações para a saúde física e econômica continuam ameaçadoras.(1)

 

O estudo, no qual os pesquisadores reuniram dados de 195 países para modelar tendências de excesso de peso e obesidade, bem como morbidade e mortalidade relacionadas, mostrou que a prevalência da obesidade mais do que duplicou desde 1980, sendo agora de 5% em crianças e 12% em adultos – achados estes que refletem as tendências globais similares no diabetes tipo 2. Mesmo com a observação de ter-se atingido um possível platô na prevalência de obesidade em países de alta renda, o aumento dessa prevalência ocorreu em todos os outros estratos sociodemográficos.

 

Do lado encorajador, o efeito do alto índice de massa corporal (IMC) nas taxas de mortalidade e incapacidade ajustadas pela idade da população não aumentou, o que sugere que as pessoas obesas estão mais saudáveis e vivem mais tempo do que nas décadas anteriores devido a melhores cuidados e gerenciamento de fatores de risco.

 

No entanto, mesmo com este sucesso, é constatado uma nova situação: a combinação do aumento da prevalência do aumento de peso com a diminuição da mortalidade leva ao possível aumento de tempo para o desenvolvimento de doenças prejudiciais e coexistentes, como diabetes tipo 2 e doença renal crônica.

 

O achado mais preocupante é a triplicação aproximada da obesidade observada em jovens e jovens adultos de países em desenvolvimento e de renda média, como China, Brasil e Indonésia. Um início precoce da obesidade provavelmente se traduz em uma alta incidência cumulativa de diabetes tipo 2, hipertensão e doença renal crônica.

 

Essas descobertas ocorrem em relatos dos Estados Unidos de que a incidência de diabetes tipo 2 na juventude aumentou substancialmente em populações minoritárias. Quando o diabetes tipo 2 ocorre na juventude, ele traz uma prevalência muito maior de complicações do que o diabetes tipo 1.(2,3) Uma vez que as reduções nas complicações do diabetes têm sido causadas por melhorias na qualidade de vida entre os adultos mais velhos, uma maior incidência de diabetes entre seus filhos pode levar a uma carga proporcionalmente maior de morbidade na meia idade(4) e espalhar o fardo das doenças crônicas entre todas as idades.

 

As descobertas dos pesquisadores do GBD são um esforço impressionante e essencial para fornecer aos formuladores de políticas as estimativas globais e específicas aos países – especialmente para a maioria dos países que não as possuem. No entanto, alguns dos pressupostos de modelagem no relatório atual podem obscurecer variações importantes nas ameaças e nos sucessos subjacentes à epidemia de obesidade.

 

Primeiramente, a suposição de que o risco de resultados em qualquer nível de obesidade é uniforme em todas as populações pode distorcer as estimativas de morbidade. Por exemplo, em qualquer nível de IMC dado, os asiáticos demonstraram ter um maior risco absoluto de diabetes e hipertensão, e os afro-americanos demonstraram ter um menor risco de doença cardiovascular do que outros grupos.(5)

 

Uma vez que doenças crônicas como o diabetes e doenças cardiovasculares se desenvolvem, o risco relativo de morte associado pode variar de acordo com a localização – como foi observado recentemente no México, onde o risco relativo de morte associado ao diabetes excede em muito os Estados Unidos e a Europa.(6)

 

Em segundo lugar, pode haver uma variação importante na parte mais alta da distribuição do IMC, que desproporcionalmente impulsiona o desenvolvimento do diabetes tipo 2 e outras doenças paralelas.(7) Em algumas regiões, a alta prevalência de obesidade severa pode persistir mesmo quando os níveis de sobrepeso e obesidade parecem não mais aumentar.

 

Finalmente, os resultados globais (apenas) nos dão uma ideia de alguns dos sucessos reais em prevenção que podem finalmente estar em andamento. Nos Estados Unidos, a última década trouxe um pico e um platô aparente na prevalência de obesidade e diabetes diagnosticada, diminuição na ingestão de calorias e de bebidas açucaradas e aumento dos níveis de atividade física.(8-10) Da mesma forma, mais comunidades americanas, agora, relatam reduções na incidência de obesidade infantil e diabetes tipo 2 em adultos.

 

As lacunas dos dados disponíveis forçaram os pesquisadores GBD a fazer o melhor possível de um tabuleiro de damas de dados periódicos, e não tão satisfatórios, para fornecer uma imagem global. No entanto, a magnitude da morbidade relacionada à obesidade e as demandas de tomada de decisão efetiva de saúde pública apontam para a necessidade de melhorias em pelo menos três tipos de dados: sistemas de vigilância eficientes e contínuos para avaliar fatores de risco, prevalência, cuidados e resultados de doenças crônicas; coortes em populações mais diversas para capturar a variação na progressão para os resultados; e plataformas para estudos experimentais naturais para determinar quais das intervenções estão funcionando localmente e o por quê.

 

Embora a obesidade e o diabetes tenham se tornado um fardo global comum que exige uma forte resposta através de ações governamentais, seus determinantes e efeitos – e particularmente suas soluções – também dependem do ambiente específico em que as pessoas vivem. Melhores sistemas de dados permitiriam aos responsáveis políticos nas áreas mais atingidas do mundo responder mais rapidamente e encurtar o longo período de aprendizado normalmente necessário para superar as doenças crônicas.

 

Traduzido por Essentia Pharma

 

Fonte:http://www.nejm.org/doi/ref/10.1056/NEJMe1706095#t=article

 

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