Apenas alguns minutos depois da ingestão de um alimento, à medida que os nutrientes penetram em sua corrente sanguínea, seu corpo faz grandes mudanças para decompor e armazenar as gorduras e carboidratos. Dentro de meia hora, o fígado já começa a trabalhar: passando pela queima de gordura até sua transformação em energia, armazenando o máximo possível de glicose ou açúcar.

Mas a velocidade com que isso acontece tem desconcertado os cientistas – um período de tempo muito curto para as células do fígado ativem genes e produzam os esquemas de RNA necessários a fim de montar novas proteínas para seguir orientando o metabolismo. Agora, pesquisadores do Instituto Salk descobriram como o fígado pode responder tão rapidamente ao alimento: as células do fígado armazenam moléculas pré-RNA envolvidas no metabolismo da glicose e da gordura.

“A mudança do jejum para a alimentação é uma mudança muito rápida e nossa fisiologia tem que se adaptar no tempo certo”, afirma Satchidananda Panda, professor do Laboratório de Biologia Regulatória do Instituto Salk e principal autor do estudo, publicado em Cell Metabolism. “Agora sabemos como o nosso corpo lida rapidamente com a chegada de açúcar”, explicou.

Hoje, sabemos que uma proteína de ligação ao RNA chamada NONO estava implicada na regulação dos ritmos diários (“circadianos”) no corpo. Mas Panda e colaboradores se perguntaram se a proteína tinha um papel específico no fígado e, então, analisaram os seus níveis em resposta à alimentação e ao jejum em camundongos. Depois que os animais comeram, aglomerados (de maneira salpicada) de NONO apareceram em suas células do fígado, recém-ligadas às moléculas de RNA. Dentro de meia hora, os níveis de proteínas correspondentes – aquelas codificadas pelo RNA ligado à proteína NONO – aumentaram.

“Depois que os camundongos se alimentam, parece que NONO reúne todos esses RNAs e os processa para que possam ser usados para produzir proteínas”, afirma o pesquisador. Quando os camundongos não possuíam NONO, levava mais de três horas para aumentar os níveis das mesmas proteínas envolvidas no processamento de glicose. Durante esse intervalo de tempo, os níveis de glicose no sangue disparavam para níveis insalubres.

Glicose e diabetes: ações no metabolismo e no fígado
Como os níveis de glicose no sangue também se encontram elevados no diabetes, os pesquisadores acham que os animais sem NONO podem funcionar como um modelo para estudar algumas formas da doença. “É importante entender como o armazenamento de glicose e a queima de gordura são regulados no nível molecular para o desenvolvimento de novas terapias contra a obesidade e o diabetes”, reforça Benegiamo.

Ainda restam dúvidas sobre como exatamente a proteína NONO é acionada para se ligar às moléculas pré-RNA após uma refeição. E Panda espera montar uma lista mais completa de todos os pré-RNAs aos quais NONO se liga – tanto no fígado quanto em outras partes do corpo. Adicionalmente, NONO pareceu em altos níveis nas células cerebrais e musculares, então os pesquisadores estão planejando estudos para ver se sua reação aos alimentos ocorre da mesma forma nesses órgãos.

O trabalho e os pesquisadores envolvidos foram apoiados pelo Salk Institute, Swiss National Science Foundation, Helmsley Foundation, American Federation for Aging Research, National Cancer Institute, National Institutes of Neurological Diseases and Stroke, Waitt Foundation, Chapman Foundation, Society for Neuroscience, e Hartmann-Mueller Foundation.
 

Traduzido e adaptado por Essentia Pharma:
https://www.salk.edu/news-release/salk-researchers-discover-liver-responds-quickly-food/