Durante muito tempo, a melatonina ficou conhecida apenas como o “hormônio do sono”. De fato, ela ajuda a sinalizar para o organismo que a noite chegou e que é hora de descansar. Mas essa é só uma parte da história.
Pesquisadores têm investigado cada vez mais a relação entre melatonina, ciclo circadiano e o funcionamento de diferentes órgãos, incluindo os olhos. Isso, porque a produção desse hormônio está diretamente ligada à percepção da luz pela retina.
Continue a leitura para entender melhor a relação entre a melatonina e a saúde ocular e por que o ritmo biológico pode ser tão importante para preservar a visão ao longo da vida.
O que é a melatonina e quais as suas funções no organismo?
A melatonina é um hormônio e também um importante sinalizador biológico do organismo. Conhecida por “ajudar a dormir melhor”, ela é produzida de forma natural principalmente pela glândula pineal, localizada no cérebro, e liberada em maior quantidade à noite, quando a luminosidade diminui. Essa secreção noturna participa da regulação circadiana, ajudando o corpo a reconhecer o momento de descansar e sincronizando o ciclo sono-vigília.
Apesar de sua função mais conhecida ser preparar o organismo para dormir, ela não provoca o sono diretamente, mas reduz o estado de alerta, organiza funções metabólicas e favorece um sono mais profundo e restaurador.
Ainda, embora a glândula pineal seja sua principal fonte, a melatonina também pode ser sintetizada em outros tecidos, como na retina, no trato gastrointestinal e nas células do sistema imune, onde exerce efeitos locais de proteção celular.
Além do sono, estudos destacam que esse hormônio desempenha diversas ações no corpo:
- Modula o sistema imunológico;
- Atua como antioxidante, neutralizando radicais livres;
- Ajuda a combater o estresse oxidativo;
- Participa do controle de processos inflamatórios;
- Contribui para o equilíbrio metabólico e hormonal.
Qual a relação entre a produção de melatonina e os olhos?
Os olhos não servem apenas para formar imagens: eles também participam da regulação do relógio biológico. Quando a luz atinge a retina, é convertida em sinal elétrico (fototransdução) e enviada ao cérebro, indicando se é dia ou noite. Durante o dia, essa informação inibe a produção de melatonina e, durante a noite, sua liberação é estimulada.
Paralelamente, o próprio olho também é capaz de produzir pequenas quantidades de melatonina. Estruturas como retina, íris, corpo ciliar, cristalino e glândula lacrimal conseguem sintetizar esse hormônio a partir do triptofano, um aminoácido essencial que deve ser ingerido pela alimentação ou suplementação.
Essa produção local atua diretamente nos tecidos oculares, ajudando a regular diferentes processos biológicos no próprio olho. Assim, além da melatonina produzida pela glândula pineal, existe também uma produção local que contribui para ajustar o funcionamento ocular de acordo com o ritmo biológico.

Ciclo circadiano
Além do controle central, a retina possui um “relógio interno”, o ciclo circadiano retiniano. Nesse sistema local, a melatonina atua diretamente na adaptação ocular à luminosidade: à noite favorece a sensibilidade em baixa luz e, durante o dia, sua redução facilita a adaptação à claridade. Esse mecanismo também está relacionado à proteção das células visuais, ao reflexo pupilar e à modulação da pressão intraocular.
Nos tecidos oculares, receptores específicos (MT1 e MT2) permitem que esse hormônio atue diretamente nas células. Assim, além de participar do ciclo sono-vigília, contribui para a adaptação visual às mudanças de luminosidade.
Ou seja, a melatonina organiza a resposta fisiológica, integrando sono, função visual e saúde ocular.
Quando a percepção de luz está ausente
Por isso que, segundo um estudo feito com mulheres cegas ou com baixa visão, naquelas sem qualquer percepção de luz, o ritmo circadiano desorganizado é mais frequente, podendo ocorrer alterações no ciclo sono-vigília e na produção de melatonina. Já naquelas com alguma percepção luminosa, o relógio biológico parece estar melhor sincronizado, mesmo com baixa visão.
Quais os efeitos da melatonina na saúde ocular?
A melatonina exerce múltiplos efeitos na saúde ocular, como demonstrado em estudos científicos, principalmente por suas propriedades antioxidantes, moduladoras da inflamação e de neuroproteção. Esses mecanismos são especialmente relevantes na retina, um tecido altamente metabólico e constantemente exposto à luz, o que favorece a formação de radicais livres.
Ação antioxidante
Além disso, a melatonina exerce ação antioxidante e neuroprotetora. Esse hormônio ajuda a proteger as células da retina e as fibras do nervo óptico contra o estresse oxidativo.
A retina, em especial, é uma estrutura bastante vulnerável a esse tipo de dano. Isso ocorre porque suas células têm alto consumo de oxigênio e estão constantemente expostas à luz, fatores que favorecem a formação de radicais livres, cujo acúmulo pode levar ao estresse oxidativo e predispor ao desenvolvimento de condições como a Degeneração Macular Relacionada à Idade (DMRI).
Nesse contexto, a melatonina atua neutralizando essas moléculas reativas e ajudando a reduzir o excesso dessas substâncias. Ao limitar esse processo, contribui para preservar a integridade das células retinianas ao longo do tempo e para a manutenção do equilíbrio funcional do olho.
Modulação da inflamação
Além do estresse oxidativo, a inflamação crônica de baixo grau está envolvida na progressão de diversas doenças oculares (como retinopatia diabética e degeneração da retina). Quando persistente, essa resposta inflamatória pode intensificar o dano celular, especialmente na retina.
A melatonina está envolvida no controle desse processo. Estudos mostram que ela reduz a ativação de células inflamatórias da retina (micróglia e células de Müller), diminuindo a liberação de substâncias inflamatórias e aumentando fatores anti-inflamatórios. Com isso, auxilia na preservação da estrutura da retina e na redução do dano tecidual.
Influência da melatonina na pressão intraocular
A pressão intraocular (PIO) é a força exercida pelo humor aquoso (o líquido que circula dentro do olho) contra a parede ocular, e ela não permanece constante ao longo do dia. Assim como outros processos do organismo, a PIO também segue variações relacionadas ao ritmo biológico e ao ciclo entre claro e escuro. Porém, quando está elevada de forma crônica e prolongada, pode surgir o glaucoma, uma doença que danifica o nervo óptico.
A melatonina pode ter um papel importante na manutenção da PIO. Estudos indicam que esse hormônio parece estar envolvido na produção e drenagem do humor aquoso, contribuindo para manter a pressão intraocular em níveis adequados.
Efeitos na lubrificação ocular e no conforto visual
A melatonina, por sua ação antioxidante e moduladora da inflamação ocular, pode contribuir para a manutenção da homeostase da superfície ocular. Ao neutralizar o excesso de radicais livres e a inflamação local, o hormônio auxilia na preservação das células epiteliais da córnea e da conjuntiva, favorecendo a estabilidade do filme lacrimal.
Essa estabilidade é fundamental para manter a integridade da superfície ocular, garantir boa qualidade óptica e proporcionar conforto visual. Alterações nesse equilíbrio podem levar a sintomas como ardor, sensação de areia nos olhos e visão flutuante.
Esse mecanismo ganha relevância em contextos de fadiga ocular associados ao uso prolongado de telas, que reduzem a frequência do piscar e aumentam a evaporação da lágrima.
Neuroproteção e envelhecimento ocular
A combinação entre ação antioxidante e controle da inflamação confere à melatonina um importante papel de neuroproteção. Esse mecanismo é particularmente relevante em condições associadas ao envelhecimento ocular, como glaucoma e degeneração macular, nas quais o dano oxidativo e inflamatório ao longo dos anos contribui para a perda progressiva de função visual.
Assim, a melatonina não atua apenas na regulação do sono, mas também participa da manutenção da saúde da retina e do nervo óptico, ajudando a atenuar processos biológicos ligados ao envelhecimento e à degeneração ocular.
O uso de telas pode afetar a produção de melatonina?
A melatonina começa a aumentar naturalmente ao anoitecer, quando a luz do ambiente diminui. O problema é que telas de celular, computador e televisão emitem muita luz azul, um tipo de luz muito parecida com a luz do dia. Quando os olhos recebem essa luz à noite, o cérebro entende que ainda é dia e reduz a produção de melatonina.
Estudos mostram que a luz azul é especialmente potente para suprimir a melatonina. Por isso, usar telas à noite “engana” o relógio biológico. Assim, o corpo permanece em estado de alerta, quando deveria estar desacelerando, o que prejudica o ciclo sono-vigília e ao longo do tempo pode afetar o humor, a concentração e a saúde metabólica.
Além de afetar o sono, a exposição noturna à luz das telas digitais também impacta diretamente os olhos. A luz azul incide sobre a retina por longos períodos e, associada à redução do piscar durante o uso de dispositivos, pode levar à chamada fadiga ocular digital. É comum perceber sintomas como ardor, ressecamento, sensação de areia nos olhos, visão embaçada e dor de cabeça. Esse conjunto de fatores contribui tanto para a desregulação circadiana quanto para o desconforto visual.
Como a desregulação do relógio biológico pode impactar a retina
Em um estudo com animais, os cientistas alteraram o ciclo de claro e escuro para imitar uma rotina desregulada. O resultado: eles tiveram piora da visão, suas retinas ficaram mais finas e houve perda de células responsáveis por captar a luz. Além disso, surgiram sinais de estresse oxidativo (dano celular).
Ou seja, esses resultados sugerem que, quando o organismo perde a noção de dia e noite, não só o sono pode ter consequências, mas os olhos também, podendo contribuir para o surgimento de doenças oculares.
Colírio e lente de contato: o que a ciência tem testado
Estudos experimentais em células e animais investigam a aplicação tópica de melatonina diretamente na superfície ocular. Os resultados sugerem potencial benefício em diferentes contextos:
- Redução da pressão intraocular e efeito neuroprotetor no glaucoma;
- Ação antioxidante associada à prevenção de alterações relacionadas ao estresse oxidativo, como catarata e miopia;
- Possível auxílio na retinopatia diabética e na degeneração macular, pela proteção neuronal e metabólica;
- Modulação inflamatória em quadros de uveíte.
Pesquisas também avaliam lentes de contato capazes de liberar melatonina gradualmente em células e em animais. Observou-se liberação do composto na superfície ocular por cerca de 2 horas, com estímulo à produção lacrimal e melhora de parâmetros de lubrificação. Entretanto, o aumento da melatonina no humor aquoso não demonstrou alteração significativa na pressão intraocular.
Continue cuidando da saúde dos olhos
Se a melatonina influencia o sono, a pressão ocular, a retina e até o envelhecimento visual, cuidar da saúde ocular também significa respeitar o ritmo biológico do seu corpo.
Entender como luz, sono e proteção antioxidante se conectam pode fazer diferença na preservação da visão ao longo dos anos.
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